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A ética do esporte: entre o sucesso da conquista e a fraude dos meios, o que prevalece?

Por Jovacy Peter Filho * 

Competições esportivas são sempre marcadas pela busca do êxito, seja em face de oponentes externos, seja diante de desafios internos. E entre atletas profissionais e amadores há sempre um ponto em comum: a intencionalidade de bem-suceder. Problema algum que seja assim, desde que estejamos conectados a meios honestos e respeitosos de alcançar a vitória. O esporte, então, serve-nos de pano de fundo para uma reflexão ética em torno dos limites da competitividade: a conquista a qualquer preço é mesmo uma conquista? Dois exemplos são bem interessantes e podem ilustrar esse debate.

Setembro de 2012, em uma partida entre Napoli e Lazio pelo campeonato italiano de futebol, o artilheiro Miroslav Klose, do Lazio, recebe um cruzamento e se impulsiona para cabecear a bola, que vai direto para o fundo da rede. Jogadores correm para abraçá-lo, mas ele não parece feliz. Há uma breve conversa entre o juiz e o atacante, recém-candidato a herói da noite. Luzes e câmeras sobre ele. Klose, de maneira discreta, aponta que o gol foi irregular, pois o movimento foi auxiliado por sua mão. Placar volta para o zero a zero. O Napoli joga melhor e vence a partida. Será que o resultado seria o mesmo se a irregularidade fosse omitida?

Vamos para 2017, também em setembro. Corinthians e Vasco disputam uma partida pelo campeonato brasileiro de futebol. O artilheiro brasileiro Jô, jogando pelo Corinthians, recebe um cruzamento e se impulsiona para cabecear a bola, que vai direto para o fundo da rede. Jogadores correm para abraçá-lo, e ele parece feliz. O time adversário aponta que o gol foi irregular. Luzes e câmeras sobre juiz e atacante. O juiz valida o gol, mesmo sabendo que o movimento foi auxiliado pela mão do jogador. Jô corre para comemorar. Placar fica um a zero. Será que o resultado seria o mesmo se a irregularidade fosse esclarecida?

Dois cenários e um mesmo contexto: qual valor cada um de nós confere para o ‘agir devido’? Como nos apropriamos de conquistas que expõem um fracasso ético no percurso? Abrir mão de um gol, de uma vitória irregular e de uma ascensão profissional fraudulenta são alguns exemplos de falhas que comprometem a verdadeira essência de bem-suceder. Penso que o sucesso caminha ao lado de coerência, respeito e franqueza e que não precisamos de juízes externos para censurar maus hábitos se os nossos juízos internos estiverem bem calibrados. Por isso, no fim das contas, precisamos mesmo é de mais juízo e menos juízes.

 

* Jovacy Peter Filho é advogado, professor, mestre em Direito Penal e presidente do Conselho Estadual de Ética Pública do Espírito Santo