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O barato que sai caro

Será mesmo que compliance significa custo para as empresas?

Por Daniel Sibille * 

Anos atrás, não tenho a menor dúvida de que se perguntassem aos principais executivos de empresas nacionais sobre a real necessidade de estabelecerem uma área de compliance em suas companhias, as principais respostas mencionariam os seguintes termos: “burocracia”, “diminuição de vendas”, “dor de cabeça” e, principalmente, “custo”. Sim, são todos termos aplicados com um viés claramente pejorativo. Mas, será mesmo que a implementação de uma área de compliance teria este significado tão negativo?

Loja do Walmart, no México: meio bilhão de dólares gastos em investigações de compliance.

De acordo com recente pesquisa desenvolvida pelo Searle Civil Justice Institute da George Mason University, nos Estados Unidos, assim que o mercado toma conhecimento de uma investigação com potencial impacto de sanções por violações ao FCPA, o valor da empresa cai aproximadamente 2,7%. Agora, vamos aplicar esse impacto numa empresa. Se considerarmos que o Walmart, maior varejista do mundo, possui um valor de mercado aproximado à US$ 240 bilhões, o anúncio de uma investigação pelas autoridades norte-americanas significaria uma perda imediata de US$ 7 bilhões em valor para o acionista. Seria, literalmente, um caso de destruição de valor para eles.

Além do valor de mercado, assim que uma investigação por possíveis violações ao FCPA, começa a rodar uma espécie de “taxímetro”, que só vai parar com o fechamento de algum acordo judicial, o que costuma levar meses ou anos em muitos casos. E a conta final desse “taxímetro” costuma ser bastante relevante. O Walmart gastou quase meio bilhão de dólares (mais de R$ 1,5 bilhões) ao longo de dois anos de investigação, de acordo com dados enviados à SEC, responsável pela regulamentação do mercado de capitais nos Estados Unidos. A fabricante de cosméticos Avon, por outro lado, provisionou mais de uma centena de milhões de dólares por conta da sua investigação relacionada ao pagamento de propina em operações internacionais, notadamente na China.

A magnitude do impacto de uma acusação de violação ao FCPA varia dramaticamente de acordo com o tipo de punição. Empresas que enfrentam acusações de suborno, por si só, têm uma redução média acumulada no valor de 2,7% do seu valor de mercado.

Contudo, empresas que enfrentam alegações de suborno e também de fraude, viram seu valor de mercado despencar até 55%. “Descobrimos que o mercado reage muito mais negativamente aos anúncios de empresas que pretendem enganar os outros”, diz Jerry Martin, professor de finanças na George Mason University e principal pesquisador do estudo.

Para as empresas investigadas apenas pelo pagamento de suborno e não por fraude financeira, a reação do mercado pode ser explicada como um cálculo racional do impacto do custo que as empresas incorrem para investigar possíveis violações e para cobrir eventuais multas ou penalidades. Já quando o problema envolve uma fraude financeira o abalo à reputação, acaba sendo muito mais relevante e empurrando as ações ladeira a baixo.

Os dados demonstram a importância da implementação de um programa de compliance robusto, que certamente acarretará em custos infinitamente menores do que os envolvidos numa eventual investigação ou uma séria fraude financeira. E essa conta não precisa nem ser feita na ponta do lápis. O programa de compliance não irá evitar que problemas ocorram, mas garantirá que a empresa possa oferecer provas concretas às autoridades públicas de que tomou as medidas necessárias, no limite do razoável e esperado, diante do risco apresentado.

 

As opiniões neste texto dizem respeito aos entendimentos pessoais do autor e não de sua empregadora.

Daniel Sibille, diretor de Compliance da Oracle para a América Latina e coordenador acadêmico do Curso de Compliance Anticorrupção da LEC.

Publicado originalmente na revista LEC edição número 15.