Artigos LEC | Como abalar a reputação de uma companhia com otimismo e bom senso
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Como abalar a reputação de uma companhia com otimismo e bom senso

Por Marcio El Kalay *

Quando um segurança decide abordar uma menina negra em certo estabelecimento, supondo equivocadamente tratar-se de uma mendiga, e pede a ela que se retire de lá, ou quando outro, ignorando até mesmo o uniforme escolar de um menino negro, pergunta ao seu pai adotivo, branco, se a criança está lhe incomodando, sob a justificativa de ter sido orientado a não deixar pedintes molestar os visitantes do local, podemos dizer que faltou bom senso. Certo? Errado.

Todos têm ou acreditam ter bom senso na medida certa, ou você já viu alguém dizendo “como eu gostaria de ter mais bom senso”? De modo geral, as pessoas conseguem distinguir o certo do errado, o verdadeiro do falso, que é o que chamamos de bom senso. Porém, fato é que conduzimos nossos pensamentos por caminhos diversos e consideramos coisas diferentes ao decidir. Quem disse isso não fui eu, mas Descartes, no “Discurso do Método”, em 1637.

O que os exemplos revelam, na verdade, é que treinamentos internos, e quero assumir que seguranças são treinados, muitas vezes são superficiais e ignoram essas coisas diferentes que as pessoas consideram ao decidir, como preconceitos, crenças, medos e tudo mais que decorre da história de vida de cada um, assim como ignoram as variáveis externas do cenário real, como a pressão e o tempo curto para a tomada de decisão.

Essas omissões ao lado de um perigoso otimismo de certos líderes, que duvidam do risco de ocorrência de crises como essas e acreditam que o bom senso sempre prevalece, formam a combinação perfeita para se alcançar uma tragédia à reputação de uma companhia.

Diariamente, milhares de decisões são tomadas, desde a contratação de um novo diretor até a troca do fornecedor de sabonetes, e as pessoas que estão à frente destas escolhas sofrem do mesmo mal: a angústia de decidir.

Um treinamento efetivo, que trate de ética com simplicidade e clareza e que seja adequado às necessidades e capacidades de cada um, certamente pode dar suporte à tomada de decisão e evitar crises de grandes proporções, especialmente se este treinamento for capaz de aproximar ao máximo os seus exercícios do cenário da vida real.

Não é à toa que companhias aéreas investem fortunas em simuladores de voo de altíssima fidelidade, ou que atletas profissionais buscam treinar nas exatas condições em que vão competir. Simular os desafios regularmente torna natural e cada vez mais rápida a tomada da decisão correta.

 

* O advogado Marcio El Kalay é sócio e diretor de novos negócios da LEC. Formado em Direito pelo Mackenzie, é especialista em processo civil e mestre em ciências jurídico-forenses pela Universidade de Coimbra, em Portugal.