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O que Pablo Escobar e o fraudador têm em comum?

Por Ana Luiza de Noronha Roque * 

Este artigo demonstra um paralelo entre o perfil do fraudador, com base na pesquisa disponibilizada pela KPMG (clique aqui), e um personagem muito famoso, Pablo Escobar, baseado no seriado que retrata sua história, Narcos. Este comparativo tem como objetivo destacar algumas características comuns entre Pablo e fraudadores do mundo corporativo. Ao longo do texto, destaco alguns números da pesquisa, de maneira a facilitar esse paralelo.

Como sabemos, os controles deficientes estimulam a fraude (61% das fraudes decorrem de controles dessa natureza). No seriado Narcos, logo no início, o narrador expõe um cenário de ausência de controles. Ele faz um comparativo entre o poder de informações dos EUA hoje e ausência de internet e celular em 1989. Esse cenário propiciava uma autêntica máquina de fraude na Colômbia. Era um sistema que dominava a cultura do país (13% são influenciados pela cultura).

Pablo Escobar fazia sucesso no ramo de contrabandos (cigarro, álcool, maconha etc). Na época, Pablo subornava metade da polícia de Medellín. Ele conhecia todos os seus players, afirmava ter “olhos por todos os lados” e a ambição de ser o Presidente da República (66% dos fraudadores é motivado por ganho financeiro pessoal e por cobiça).

O fraudador nada mais é do que um mentiroso, um dissimulado. Mas, saiba que, na sua maioria, ele não age sozinho. Na verdade, fraudadores se unem. De acordo com a pesquisa, a fraude tem duas vezes mais chances de ser cometida em grupo do que individualmente. No geral, são pessoas gananciosas, que querem praticar pelo prazer, pelo poder do “eu posso” (27% dos fraudadores praticam porque tem muita vontade). São destemidos e têm certeza da impunidade (o seu senso de superioridade é mais forte do que o seu senso de medo, ou ódio).

Sendo assim, grupos maiores, compostos por cinco ou mais pessoas, tendem a causar maiores prejuízos financeiros às empresas. Veja Pablo, ele negociava e expandia suas parcerias, ainda que na base do famoso “Prata ou chumbo”, o que não deixa de ser uma parceria – por contrapartidas ou intimidação. Grupos de fraudadores são integrados, muitas vezes, por profissionais tanto de dentro como de fora da empresa. Pablo, em parcerias interna e externas, alcançou o território americano para traficar droga, por terra, céu e mar (70% dos fraudadores compactuam com terceiros).

Em relação às características pessoais, a pesquisa da KPMG destaca que “O autor da fraude tende a ser do sexo masculino, com idade entre 36 e 55 anos, que trabalha junto à organização vítima por mais de seis anos, e que mantém uma posição executiva em operações, finanças ou gestão geral”. Se trouxermos novamente a análise de Pablo, ele começou a sua vida criminosa desde a adolescência, no entanto, começou a desenvolver seu esquema de venda de cocaína aos 26 anos. Tentou subornar os juízes que queriam abrir processo contra ele. Posteriormente, subornou policiais que arquivaram os casos contra ele e passou a lidar com as autoridades por meio de suborno (ou assassinato). Aos 31 anos atingiu seu auge.

Como já mencionado anteriormente, o fraudador age em grupo. Pablo era o comandante do grupo, do cartel de Medellín. E, coincidentemente, hoje, a América Latina permanece detentora do maior índice de conluio (combinação de dois ou mais para prejudicam terceiros).

Pessoas com cargos altos, segundo a própria pesquisa, tendem a cometer mais fraudes – talvez pela facilidade de acesso aos processos e possibilidade de burlar os controles. Para Pablo não era diferente, ele era como o CEO de uma empresa, carismático, poderoso e exigente. Ele também fazia parte da “diretoria” do Cartel de Medellín (44% dos autores dispõem de alçada ilimitada em suas empresas e têm a possibilidade de passar por cima dos controles internos).

Voltando ao conluio, havia alianças com sujeitos externos. Traficante George Jung, dos EUA, que distribuía a droga para o jet set de Manhattan Beach, na Califórnia. Barry Kane, piloto americano que levou a cocaína para Ochoa até a Flórida. Essas alianças eram perversas, o cartel possuia algo como se fosse uma ala militar, composta por pequeno grupo de jovens assassinos, os sicários, de comunidades de Medellín.

Além disso, Pablo tinha uma vocação filantrópica e era admirado por grande parte do povo, construiu igrejas, campos de futebol, casas. Curioso que ele é retratado com algumas características de empatia e altruísmo, em algumas cenas, tais como, a cena em que um parceiro mata o cachorro que quase estragou o esquema; quando afirma para sua mãe que “todos os banqueiros são bandidos”, demonstrando uma certa revolta contra o sistema e essas “pessoas erradas”. É como em uma empresa, aquele empregado que tem ambição de sugar o máximo possível da empresa, como se fosse uma causa nobre ou um direito dele, já que as empresas são vilãs da sociedade e alimentam um sistema injusto (leia esta frase com tom de ironia!).

A pesquisa menciona outras motivações do fraudador, além das já destacadas ao longo do texto, são elas:

  • 12% deseja atingir metas/esconder prejuízos para receber gratificações
  • 12% deseja cumprir metas orçamentárias/esconder prejuízos para manter o emprego
  • 11% deseja atingir metas/esconder prejuízos para proteger a empresa
  • 10% outras motivações não relacionadas acima
  • 5% outros motivos (menos de 5%) incluindo: Perda de confiança, prevenção da ocorrência do compliance regulatório, influenciado por classificações, influenciado por publicidade, desmembramento das operações

Considerando percentuais de fraudes que resultam em um prejuízo de US$1 milhão ou mais, 42% das fraudes são realizadas por fraudadores internos; 32% das fraudes são cometidas por fraudadores internos e externos e 25% são cometidas por fraudadores externos.

Fazendo um pequeno paralelo com a frase de Simone de Beauvoir, “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos” poderia dizer que “O fraudador não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios colegas”.

Dentro das empresas, temos nosso Pablos, fraudadores e turmas. Você não poderá mudar o caráter das pessoas, mas poderá investir em processos que inibam tais ações e mecanismos que detectem seus desvios. A fragilidade dos controles internos contribui para o aumento de três-quintos dos casos de fraude. Controles são fundamentais.

 

* Ana Luiza de Noronha Roque é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade pelo Centro Universitário SENAC. Atualmente é Coordenadora de Compliance e Responsabilidade Social do Grupo Promon.

Fonte: Pesquisa disponibilizada pela KPMG