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Gestão de departamento jurídico – Estamos preparados?

Por Roberta Codignoto *

Quando se fala da gestão de um departamento jurídico há sempre um tema que surge primeiro nessa discussão: o preparo do profissional jurídico. Será que os advogados formados pelas tradicionais escolas de direito estão preparados para a realidade corporativa e para gerir uma área?

A resposta já é uma velha conhecida. Buscar formação complementar é extremamente relevante para o advogado corporativo, pois muitas novas habilidades serão exigidas no decorrer de sua carreira corporativa. No entanto, o que se deve analisar é o que buscar como formação complementar. E, para essa análise, é preciso compreender qual é o papel do jurídico, para o que ele existe e qual sua missão na organização.

Em primeiro lugar, é necessário que o jurídico se veja como uma área do negócio, não como uma área isolada ou diferenciada. O advogado corporativo, seja membro da equipe ou o gestor da área, deve se enxergar como parte da empresa e não como um “ser diferente e nobre”, que tem carteira da OAB.

Quando entra para o ambiente corporativo, o principal desafio do advogado é a resistência com a figura do jurídico, que é visto como um obstáculo na realização de negócios. Na verdade, o advogado que será gestor jurídico tem um duplo desafio: o de aprender o negócio e o de vencer a resistência que as demais áreas têm sobre sua atuação.  Sim, há “pré-conceito” de que o jurídico é um bicho estranho que fala duas línguas: “nãozês” e “juridiquês”.  Portanto, a forma como esse profissional vai se apresentar perante seus clientes internos é fundamental.

Para isso, comunicação e compreensão do negócio são fundamentais. Busque aprender sobre a área de atuação da empresa e cursos de formação de negócios. Ferramentas de comunicação também são muito interessantes. Abandone o Word e o substitua pelo Excel e Power Point. Aprenda a falar “businessês” e jogue fora o jargão jurídico. Seu público interno não é de advogados.

Em segundo lugar, o jurídico deve dar suporte às diversas áreas de negócio da empresa para que possam atingir seus objetivos, cooperando para minimizar riscos, buscar novos negócios e reduzir os problemas existentes. E vai encontrar resistência também por um tema cultural.  Muitas vezes, a forma como o “advogado” enxerga o problema não é a mesma como uma pessoa do negócio o faz. Certamente que o conhecimento jurídico é necessário e é por isso que este profissional é contratado. Mas, a partir do momento que o advogado corporativo aprende a enxergar a situação de outra forma, além de se colocar no lugar do seu cliente interno, ele terá mais argumentos e compreenderá efetivamente como ajudar.

Com o alinhamento dos clientes internos e melhor comunicação é possível entender as necessidades das mais diversas áreas e atuar como um jurídico estratégico dentro da empresa.  Para esse alinhamento, ferramentas de coach e de negociação podem ser muito úteis.

Continuando a explorar o papel do jurídico, como toda e qualquer área da empresa, ele precisa dar resultado, controlar despesas, oferecer serviços jurídicos com o melhor custo-benefício para a empresa. E precisa aprender a mapear seus processos, preparar e gerir seu orçamento, escolher e negociar com seus parceiros externos. E demonstrar tudo isto de forma que a diretoria possa “ler”.

É essencial o conhecimento de finanças e domínio de algumas ferramentas para que se possa demonstrar o resultado da área.  Antes de tudo, ferramentas que possam efetivamente auxiliá-lo a mapear seus processos internos, pois, sem que haja controle, não há o que se demonstrar. Tem que estar de olho no que existe no mercado. E conhecimento em contabilidade é um diferencial que ajuda muito, inclusive no relacionamento com o financeiro.

Além disto, a tecnologia está cada vez mais presente nos negócios e isso gera uma expectativa por mais agilidade de resposta e reação, um jurídico de resultado e de curto prazo.

Para tanto, é preciso estar “conectado” com o que acontece no mundo digital e tecnológico de forma a descobrir a melhor utilização dessas ferramentas para a visibilidade da sua área.

Por fim, dependendo do tamanho do departamento, será necessário gerir pessoas, contratá-las, administrar suas carreiras, motivá-las e, em algum momento, desligá-las. E o advogado não aprendeu isto na faculdade (talvez nenhum profissional aprenda isto de fato…).

Para desenvolver a habilidade com pessoas, uma boa ferramenta é a aproximação com Recursos Humanos. Muitas empresas possuem programas internos de desenvolvimento de líderes, que podem auxiliar muito na formação desta nova competência. MBA’s de negócios em geral possuem módulos de gestão de pessoas, que são muito importantes para aqueles que não têm experiência nesta área.

Não se pode esquecer que, como gestor, deve-se dar feedback constante. E nada melhor do que saber recebê-lo. A área jurídica pode (e deve!) consultar as demais áreas sobre o sua atuação, o que contribuirá para avaliar todos os pontos mencionados anteriormente, além de auxiliar na forma como irá gerir sua equipe interna.

Concluindo, pode-se não se estar preparado, mas é possível buscar ferramentas e formação complementar que o ajudarão a enfrentar a gestão de uma área jurídica, sem se esquecer de que é preciso fazer a desconstrução da velha visão de advogado e a construção de um executivo jurídico que está alinhado aos valores e concretização dos objetivos da empresa.

 

Roberta Codignoto, diretora Legal & Compliance da Staples.