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As Intermitências da Morte e a Corrupção Sistêmica

Por Ana Roque*

Deparei-me com a primeira morte de alguém muito próximo, a morte de minha avó. Moramos juntas durante muitos anos e compartilhamos muitas experiências e aprendizado. Então, nas minhas férias seguintes, tratei de ler um livro que, havia muito tempo, estava na minha lista (e, então, pareceu-me oportuno ao drama que recentemente havia vivido): As Intermitências da Morte, de José Saramago. Além de ter trazido um conforto pessoal, a leitura despertou-me um paralelo incrível entre o significado da morte e o comportamento social do homem moderno.

Intermitência significa interrupção momentânea. De repente, uma sociedade vê-se diante da interrupção momentânea do sistema da vida, a morte. Mas havia uma saída, atravessar a fronteira para se ter a dignidade de morrer. E aí começa a corrupção do grupo organizado denominado Maphia. Estamos no início de 2017 e, imagine você que, de repente, ninguém mais morre. Bem, quantos não desejam a vida eterna, não é mesmo? Mas, sejamos práticos. José Saramago trouxe-nos um elegante e literário exercício. Vejamos, ninguém mais morre e um sistema, numa terra fictícia, entra em colapso.

As agências funerárias passam a formar cartel, as igrejas começam a exigir que medidas sejam tomadas para que se volte a morrer, pois sem vida após a morte, religião e fé passam a perder o sentido de existir; as seguradoras começam a perder clientes e, o centro de reflexão deste artigo – a corrupção, se instaura de maneira sistêmica, e a Maphia apodera-se do tráfico de pessoas para, então, fazer cumprir o desejo de familiares e de pessoas que lutavam pela simples dignidade de morrer. Pagava-se caro. Mas, já estava tudo instituído de maneira sistêmica, pagavam-se subornos aos policiais das fronteiras, cobravam-se valores exorbitantes às famílias. Até que então, a morte (sim, com letra minúscula) decidiu que se voltaria a morrer “como tal sucedia”.

As pessoas, agora, tinham seus contratos com a vida rescindidos com aviso prévio de sete dias. Para retratar esse sentimento, deparei-me com uma ilustração que traduz bem esse olhar em que a morte volta e comunicar com antecedência seus executados, a obra está exposta no MAM e chama-se “Amanhecer sobre foices”, de Giuseppe Santomaso. A situação pode revelar que quando um sistema é ameaçado, seus integrantes movimentam-se de tal forma que criam uma janela de oportunidade para a má conduta e a corrupção. Nada mais seria como antes, pois quando a corrupção é sistêmica, ela ganha novas formas para perpetuar a sua atuação. A Maphia, então, passa a cobrar para proteger os políticos, voltando a ameaçá-los de morte, porém, não era mais a mesma morte desejada pelos familiares.

Como sair desse impasse? Parece mais do que uma obra fictícia. Na vida real, essa rearticulação da corrupção é presente e constante e é esse mecanismo que devemos combater no dia a dia das empresas. Não devemos permitir que o sistema se reconfigure de maneira corrupta novamente, as falhas devem ser eliminadas de todas as suas entranhas para que se estabeleça um sistema “limpo”. Esse é o papel dos Programas de Compliance, manter os sistemas íntegros.

 

* Ana Luiza de Noronha Roque é formada em Letras pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade pelo Centro Universitário SENAC. Atualmente é responsável pela operação do Programa de Compliance do Grupo Promon.